domingo, 16 de dezembro de 2012

Conto - O Símbolo (Suspense Policial)






Um homem aproximadamente trinta anos, usava chapéu preto daqueles clássicos italianos do início do século XX.Uma capa de chuva até o joelho um tanto surrada, porém muito eficaz nos dias chuvosos como aquele parecia dar indícios: céu nublado, cinza, aos poucos ia fazendo do dia noite.

O homem que, aliás, tinha por nome Levy Barros. Aparentava usar sempre a mesma roupa; deixava a barba crescer por meses e depois a tirava, o mesmo acontecia com o cabelo. Tinha olheiras por conta da insônia, seus olhos vermelhos contrastavam-se com o castanho claro de sua íris. As rugas eram acentuadas próximo aos olhos, sua expressão facial sempre fechada, fria como se não houvesse personalidade. Não era muito de falar, somente o necessário.

Todos esses aspectos e características tinham uma explicação no passado: Há três anos antes, Levy, levava uma vida normal, não havia nada de estranho a não ser depois que sua esposa, Laura, fora assassinada. No entanto, a polícia não conseguiu esclarecer o caso. Não conseguiram determinar quem cometera tal crime e o por que. Talvez fosse o destino, pensava Levy. Para ele, pois, o destino é quem lhe reservara a frustração, o sentimento de angústia. E não houve um dia sequer em que a vingança o atormentava ansiando incessantemente encontrar com o responsável.

Naquele momento atravessava a rua sem pressa a fim de subir para o seu apartamento que francamente não era lá essas coisas, em outras palavras, não havia nenhum luxo. O prédio era bem antigo, aliás, tudo a sua volta era muito estranho beirando ao sinistro, com um ar fantasmagórico, efeito esse produzido por alguma penumbra aqui e ali e assim por diante. Aquele lugar era praticamente outro mundo, melhor, um submundo. Levy, no entanto, não se importava com isso, já havia se acostumado a viver nas sombras; a andar por elas e nem ao menos se perder. Tinha seus próprios demônios e ninguém precisava saber disso.

Parou diante da porta do prédio, enfiou a mão no bolso, pegou a chave e antes que fosse ao encontro da fechadura um barulho estranho ecoou, virou-se para ver o que era, mas a rua permanecia semelhante a um deserto, não havia nada ou ninguém a não ser o sopro frio do vento. Era tarde e por isso ele considerou o próprio cansaço lhe pregando uma peça. Segundo depois e o mesmo barulho; novamente não viu ninguém... Levy desceu os três degraus que havia antes da porta do prédio, parou do lado de um poste, olhou para ambos os lados e mais uma vez nada.

De repente uma segunda lufada de vento o agrediu, de modo que Levy precisou proteger o rosto. Deu alguns passos para trás. A impressão que teve foi de uma tempestade, o vento cada vez mais forte vinha de todos os lados. Foi tudo muito rápido, um barulho ensurdecedor o fez contorcer de dor, luzes piscavam freneticamente, aliás, jamais tinha visto fenômeno igual aquele em toda a sua vida. Levy, completamente perdido, tentava achar alguma explicação para o que estava acontecendo. Sacou sua arma não se preocupando em garantir sua integridade física e sim como num mecanismo automático depois de muitos anos de treinamento e prática, afinal de contas, era um policial, na verdade, um investigador em tempo integral era a definição perfeita para Barros. Mas quando a tempestade dava indícios de que cessaria de repente as poucas luzes que funcionavam dos postes ao longo da rua foram explodindo uma por uma até que inexplicavelmente tudo parou. Havia agora somente o brilho da lua...

***

Imagens; fleches de luzes passavam pelos olhos de Levy, tinha a impressão de que ou estava sonhando ou o mundo havia se transformado em uma realidade caleidoscópica, extremamente delirante. Acordou suado, ofegante e o mais estranho de tudo, em sua cama. Perguntava-se o que havia acontecido noite passada ao chegar em casa. Teria sido um daqueles meus pesadelos, pensou Levy consigo mesmo. Mas logo certificou-se que ainda estava com a mesma roupa da noite anterior, ou seja, tudo o que aconteceu foi a pura verdade, embora, aparentemente, tinha a recente sensação de ter acordado de um pesadelo que se confundia com a realidade.

***

– Senhor? – a garçonete chamou a atenção de Levy de propósito – Senhor?

– Me desculpe! – Levy responde ao seu chamado, acabara de submergir de seus pensamentos sobre a noite passada.

– Posso anotar o seu pedido? – perguntou a garçonete fitando-o atentamente.

– Um café expresso, por favor! – ele não entendia como a garçonete não havia decorado o seu pedido de sempre café expresso e mais nada.

            Contudo, achou estranho o Café, talvez o único lugar sociável que frequentava estar vazio. Mas não se deteve muito tempo em tal observação, no momento, aquela calmaria era agradável e voltou sua atenção para o jornal que havia comprado do outro lado da rua. Como sempre as manchetes eram as mesmas: Assassinatos, homicídios, roubos, corrupções, crise econômica, alguns casos suspeitos de suicídio, outros de tráfego de drogas. Enfim, a mesma violência, criminalidade e crises de sempre que já estava habituado; acostumara-se a tais fatos e afirmava para si mesmo que isso tudo sempre aconteceu, por mais que a mídia e a opinião pública divulgassem isso sempre como uma escalada a índices cada vez maiores. Há muito tempo já não se preocupava com isso, afinal, cada um tinha o seu papel na sociedade pensava consigo mesmo. O dele, porém, era o de investigar e sempre que possível chegar ao autor do crime e mandá-lo para prisão, mas muitas vezes essas tarefa tornava-se tão exaltante, consumia praticamente todas as suas energias tanto físicas quanto emocionais.

            Levy ia esquadrinhando o jornal, principalmente a sessão criminal que sempre lia por último, era um hábito que se tornara um ritual. Fazia pequenos intervalos para tomar o café entre um artigo e outro. Havia uma manchete do suicídio de um detento (réu confesso) acusado de estuprar e matar uma menina de apenas doze anos. O homem de quarenta e cinco anos estava em uma cela separada; na manhã do dia seguinte no horário em que o café era servido, policiais o encontraram pendurado pelo pescoço pelo fio da lâmpada. Levy fez uma pausa por um instante, tomou um gole do seu café, olhou ao seu redor observando que o número de clientes havia aumentado; olhou pela janela e viu que estava chovendo, sorte a dele por sempre levar consigo seu sobretudo. Tornou a ler a matéria – onde parei mesmo – procurava onde havia parado.

            Dentre todas as matérias a que mais lhe chamou sua atenção foi de uma jovem, vinte e dois anos, estudante de jornalismo. Na mesma matéria havia uma foto da moça que, aliás, tinha um rosto muito bonito. A notícia teria passado despercebida não fosse por um detalhe; no texto da matéria havia detalhes de como o corpo fora encontrado. Atentamente lia o seguinte trecho: “... o autor do crime marcara sua vítima com um tipo de símbolo, ainda não identificado o seu significado. Conforme as autoridades nos informaram tudo será investigado. De acordo com o investigador da divisão de homicídios, responsável pela coordenação na investigação do caso, o agente Ícaro Alles, supõem que pelo fato do assassino ter deixado uma ‘assinatura’ pode tratar-se de um assassino em série ou pode ser só um doente psicótico querendo chamar a atenção de todos ou de alguém em especial".

            Terminou de ler o trecho e aquelas últimas palavras ficaram ecoando em sua mente – querendo chamar a atenção de todos ou de alguém em especial. Por um instante todo o barulho a sua volta, gente conversando, o barulho da chuva lá fora deixou de existir. Levy, pois, ficou a divagar sobre a matéria que acabara de ler, mas todo o fluxo de raciocínio fora interrompido assim como se interrompe o fluxo de uma torneira ao fechá-la quando o celular tocou.

            Enfiou a mão dentro do paletó, pegou o celular, o aparelho vibrava freneticamente conforme o toque. Olhou na tela para ver quem o ligava, era Allan Vegas, um investigador veterano assim como Levy.

– Alô! – atendeu Levy.

– Levy! Bom dia, como você está? – disse Vegas educadamente antes de iniciar uma conversa objetiva que justificasse sua ligação.

– Bom dia Vegas! – falou Levy, continuou – Estou bem! Já leu o jornal hoje? – perguntou só para ouvir o que Vegas iria dizer.

– Então... – do outro lado da linha Vegas ficou um tanto surpreso com a pergunta – Hora, hora, por um instante pensei que você havia lido meus pensamentos – deu uma risada e continuou – Vi sim, aliás, esse foi o motivo que liguei para você.

– Como assim? – ficou sem entender Levy. Levantou-se da mesa, deixou o dinheiro do café e uma singela gorjeta. Vestiu o sobretudo e por último seu chapéu e deixou o estabelecimento; no momento estava chuviscando, parou ali mesmo, na porta do café e continuou sua conversa – Pode ser mais claro Vegas?

– Policiais acabaram de encontrar o corpo de uma mulher no parque... – houve uma pausa, a ligação começou a sofrer uma interferência, mas logo continuou – ...com descrições do caso da noite passada; estou a caminho da cena do crime, no local ti passo mais informações.

– Ok Allan! – disse Levy – Devo chegar lá daqui uns vinte minutos, estou no centro – caminhava em direção ao carro.

– Ok! – disse Vegas – Antes que eu me esqueça... – outra interferência do sinal o que indicava que Vegas estava aproximando-se cada vez mais do local do crime – ...a cena do crime está no lado oeste do parque. Nos vemos lá!

– Certo! – disso Levy, desligou o celular.

            Pegou a chave do carro, destrancou-o, abriu a porta e entrou. Girou a chave na ignição, olhou pelo retrovisor se poderia sair, engatou a primeira marcha e foi. Ocorreu-lhe que veio ao seu encontro uma sensação estranha sempre que se direcionava para uma cena de crime, talvez por ir ao encontro de algo desconhecido, pensou Levy.

            Por conta da chuva e da neblina gastou mais que vinte minutos. Logo que saiu do carro Vegas veio ao seu encontro, cumprimentaram-se e imediatamente Vegas foi informando Levy de todos os detalhes. O parque era um local de visitação, caçar era extremamente proibido por se tratar também de uma reserva de preservação ambiental. De longe, Levy, observou que a cena do crime estava devidamente isolada por mais que fosse em um lugar inóspito, era importante seguir o protocolo e manter o local preservado.

       Além dos dois veteranos estavam também duas viaturas, caso fosse necessário suporte, garantiria a segurança aos investigadores e a dos peritos. Parecia improvável, mas havia sempre a possibilidade do assassino retornar a cena do crime. Difícil mas não impossível concluiu Levy. Abaixou-se para entrar no perímetro da cena do crime. Levy virou-se para Vegas do outro lado da faixa amarela que delimitava o local em que se encontrava o corpo da jovem.

– Já temos uma identificação do corpo? – perguntou Levy fitando-o atentamente.

– Bom... Não encontramos nenhum documento pessoal que pudesse identificá-la, estou esperando o exame de DNA ficar pronto – disse Vegas com um bloco de anotações na mão – E antes que me pergunte... – fez uma pausa olhando em suas anotações como se estivesse certificando-se antes de repassar a informação – É isso mesmo! Não há nenhuma testemunha.

– Certo! – disse Levy ainda mais intrigado agora observando atentamente o corpo nu da jovem.

            O corpo estava de bruços, não havia sinais de agressão o que significava que não houve luta, logo a vítima não reagiu. Levy concluiu que a jovem poderia ter sido sedada e aquele não era o local do crime de fato, mas o local da desova do corpo. No entanto não havia evidências de que a jovem fora transportada por algum tipo de veículo, a impressão que tinha é que o corpo simplesmente apareceu ali. Outro detalhe que o deixou ainda mais curioso foi o fato de não ter encontrado rastros de pegadas ou se o corpo teria sido arrastado. Observava cada detalhe do terreno e nada encontrava; ouviu alguém chamá-lo, fora o perito que acabara de virar o corpo. Levy se aproximou e logo identificou algo familiar.

            Enquanto o perito tirava fotografias da jovem e do local a sua volta, Levy aproximou-se um pouco mais a fim de estudar melhor o sinal que o assassino fez na linha da cintura da jovem. Não havia mais dúvidas, pensou consigo mesmo.

– Depois quero o resultado do exame toxicológico e as fotos do corpo – disse Levy ao perito que só confirmou assentindo com a cabeça.

            Tirou as luvas e as jogou em um saco de lixo preto. Vegas guardou seu bloco de anotações e foi até Levy.

– É ele não é? – perguntou Vegas.

– Não há dúvidas! – disse Levy no mesmo instante em que ajeitava seu chapéu – Confesso que no início pareceu-me um assassinato qualquer, mas a marca não deixa dúvidas! – concluiu fitando Vegas.

– Pensei que esse doente havia morrido! – Vegas tirou os óculos de grau e os guardou no bolso do paletó – O que iremos fazer? – perguntou.

– O que iremos fazer? – falou Levy ironicamente – Não iremos fazer nada. Você não precisa vir comigo, não tem nenhuma obrigação. – fez uma pausa e continuou – O meu objetivo não segue nenhuma norma ética ou moral, portanto, pretendo caçá-lo e mandá-lo para o inferno ou qualquer outro lugar que não seja esse – fez-se silêncio, ambos olhavam-se; Vegas pousou sua mão sobre o ombro de Levy.

– Entendo a sua posição e não vou perder meu tempo em tentar convencê-lo do contrário – ajeitou seu casaco e continuou – Mas se precisar de ajuda sabe como me encontrar.

– Eu agradeço – disse Levy indo em direção ao carro – Mas essa luta é minha, preciso dar um fim nisso. Só peço que me deixe atualizado sobre qualquer novo detalhe – entrou no carro e saiu como se estivesse atrasado para algum compromisso.

– DEIXAREI! – gritou Vegas pegando novamente seu bloco, anotava tudo o que o perito ia lhe falando.

            Ao retornar para cidade foi direto para o IML, no local encontrou com Ícaro Alves, o investigador da matéria do jornal. Ambos já se conheciam, já haviam trabalhado juntos em alguns casos.

– O corpo está preparado? – perguntou Levy.

– A sua espera – respondeu Ícaro subindo as escadas, abriu a porta e ambos entraram; agora estavam na recepção do IML. Havia uma mulher, na verdade, uma senhora de uns quarenta anos, com um ar apático, como se odiasse o seu trabalho, metida em uma papelada de formulários.

            Os investigadores passaram direto por ela, entraram por uma porta com a seguinte inscrição – Entrada proibida, somente funcionários – Caminharam por um longo corredor, do lado esquerdo, no final, havia uma porta e nela estava escrito – Sala de Necropsia – Entraram por ela, uma sala bem ampla e muito bem iluminada; de um lado ficava a geladeira onde eram guardados, por assim dizer, os corpos, no meio da sala quatro macas de necropsia feitas de um material de metal. O médico legista, Dr. Wilson, estava a espera dos policiais. Levy olhou no seu relógio, eram quase sete da noite, cumprimentou o doutor que logo foi abrindo uma das câmaras onde encontrava-se o corpo da jovem.

– Hoje, logo pela manhã... – começou a falar Levy, enquanto isso o médico puxava uma espécie de maca sobre um trilho e expandia com o defunto para fora, continuou –...foi encontrado o corpo de uma jovem, provavelmente com o mesmo perfil desta aqui. Não posso falar muita coisa, afinal, o corpo ainda não foi identificado. Mas se estou certo... – fez uma pausa, olhou para o médico em seguida para Ícaro e continuou – ...se estou certo o assassinato dessa jovem tem ligação com esse outro corpo encontrado hoje.

            O corpo estava dentro de um saco preto, Levy colocou luvas, ele mesmo abriu o zíper do saco até a cintura; abriu as duas metades do saco e o que procurava havia encontrado. Ícaro olhou para o rosto de Levy, estava curioso para ouvi-lo.

– E então? – perguntou Ícaro ansioso.

– O corpo da jovem encontrado hoje mais cedo... – fez uma pausa por um instante – ...fora marcado com esse mesmo símbolo. – disse apontando para a marca presente na cintura do lado esquerdo, semelhante a que viu na outra jovem.

– Pode fechar, sim! – falou Levy ao médico legista, esse por sua vez só balançou a cabeça e guardou novamente o corpo.

– Então você acha que o mesmo assassino de mais cedo é o mesmo da noite passada? – perguntou Ícaro um tanto confuso.

– Vamos? – disse Levy indicando a Ícaro que o acompanhasse para fora da sala – Vamos para um lugar mais a vontade e não aqui, entre os mortos – virou para o legista e continuou – Sem querer ofende-lo!

- Não ofende! – disse Wilson com senso de humor – Só desejo boa sorte a ambos. Espero que consigam pegar esse doente – falou o médico acenando aos dois policiais

– Obrigado! – falaram ambos ao mesmo tempo e logo saíram.

Fora do IML, na calçada, Levy dava as seguintes instruções a Ícaro – Quero que me mantenha informado sobre o caso, algum detalhe novo, enfim, tudo – falou Levy.
– Pode deixar comigo! – concordou Ícaro.

            Levy olhou no relógio, eram nove e cinco da noite. Depois que saiu do IML foi para o píer e lá ficou pensando sobre tudo que acontecera ao longo do dia. Estava sentado sob a luz amarelada do poste, observava o mar a sua frente, um lugar perfeito pensou consigo. Não cansava de observar a vastidão do horizonte, a brisa morosa, o barulho das pequenas vagas ao encontro com a madeira do píer. Embora o lugar mantinha-o em plena sincronia com seus pensamentos, não conseguia, pois, esquecer os rostos das jovens e na seqüência o símbolo que mais parecia uma tatuagem macabra desenhada sobre a pele pálida dos corpos. Levantou-se, caminhou em direção ao pára-peito e debruçou-se sobre o mesmo, já nem mais se importava com as horas. Agora só prestava atenção ao som do mar e mais nada. Naquele momento o mundo parecia tão mais simples e menos cruel, talvez um tanto misterioso, refletiu. A brisa não cessava, de repente, Levy ouve um sussurro ou algo parecido, imediatamente lembou-se do evento da noite passada, o fluxo de pensamento cessou, voltou para a realidade, afastou-se do pára-peito, olhou a sua volta, não havia ninguém, estava sozinho como na noite anterior. A brisa, porém, esvaiu-se, no instante seguinte pairou uma leve bruma fria transformando o píer numa atmosfera fantasmagórica. Segundo depois virou as costas para o mar, andou três passos, mais um e parou. Ajeitou o chapéu levantando-o um pouco na frente, percebera, pois, que havia esfriado. A luz amarelada dos postes em meio a toda aquela bruma deu um aspecto opaco a atmosfera.

            Levy, pois, sentou-se novamente no mesmo banco, dessa vez tirou o chapéu e tentou se lembrar da melodia de alguma música, mas tal esforço fora em vão. Olhava o mar, tão negro e infindo, no mesmo instante um turbilhão de sentimentos veio ao seu encontro. Não sabia, no entanto, qual o melhor para se apegar e qual o pior para afastar de sua mente. Era uma mistura inconsciente: num instante sentiu vontade de chorar, no outro ódio, logo veio a angústia; uma dor demasiada preenchia o vazio em sua alma. Embora seus sentimentos fossem semelhantes ao fluxo de um vulcão, porém, sentiu-se aliviado por simplesmente estar sozinho à beira do precipício observando a paisagem. Colocou os cotovelos sobre os joelhos e com a palma das mãos apoiou a fronte e fechou os olhos, ao longe podia ouvir o som da cidade que jamais adormecia por completo, às vezes um silêncio e às vezes não.
            Sentia agora uma quietude, como se fosse o único acordado. Levy, no entanto, leva um susto quando o celular toca, enfia a mão no bolso do paletó. Antes mesmo de olhar a tela do aparelho a ligação cessa, contudo não havia um número, o celular simplesmente começara a tocar. No minuto seguinte ouve outro sussurro, um vento gélido corta sua face como se fosse a lâmina fria de uma navalha. Mais outro sussurro e Levy começou a pensar se estava ficando louco. Mas não estava, pelo contrário, estava consciente da realidade. Só não sabia o que estava acontecendo consigo mesmo. Levantou-se, colocou o chapéu e caminhou em direção ao carro.

            O telefone novamente tocou e novamente não havia número. Levy não hesitou, atendeu a chamada:

– Alô! – disse olhando em volta – Quem é? O que você quer comigo?

            Levy olhou na tela do aparelho, a ligação, no entanto, não havia caído.

– Quem é? – falou novamente só que de forma ríspida – Por favor, fale comigo! – disse Levy agora com a voz num tom desesperado.

            Não adiantava ninguém o respondia. Até que ouviu um chiado, uma interferência ou algo do tipo, aliás, muito estranho pensou consigo.

– Onze...! – disse uma voz sussurrada.

– Onze? – perguntou Levy sem entender – O que é onze? FALE-ME! – gritou.

            Ouviu outro ruído agudo insuportável e novamente o sussurro. Levy tinha a estranha sensação de que aquela voz não vinha do celular e sim da sua própria mente. Novamente ouviu:

– Metrô...! – fez uma pausa como submergindo e emergindo das sombras – ...resposta para o que procura! – falou.

– Resposta? O que eu procuro? – estava confuso – Não entendo! – disse – Alô? Pode me ouvir? – olhou na tela do aparelho e continuou gritando – O que é onze e o que tem haver com metrô? – estava com tanta raiva que deu um soco no capô do carro.

            Fez-se silêncio, Levy não ouviu mais a voz e se antes tinha algumas perguntas mal esclarecidas agora o número dobrara. Sentia um formigamento na mão direita a qual socara a capô do carro. Não sabia o que fazer, precisava reorganizar suas idéias antes de tomar qualquer ação. Olhou a sua volta, a cidade parecia um deserto, a única coisa a fazer fora entrar no carro e sair. Pegou o chapéu do chão, abriu a porta do carro, entrou e foi embora.

***

            O telefone toca, era Vegas:

– Alguma novidade Vegas? – perguntou Levy.

– Somente os relatórios que você me pediu – falou Vegas descontraído.

– Encontre-me no café! – Levy falou e ao mesmo tempo trocou de marcha.

– Já estou aqui! – deu pra sentir o sorriso no tom da voz de Vegas.

– Perfeito! – assentiu Levy – Estou chegando aí! – desligou o celular e concentrou-se no transito.

            Vegas era o tipo de pessoa que nada o tirava do seu estado normal, estava na mesa na qual Levy costumava se sentar. Havia colocado a pasta sobre a mesa e estava comendo rosquinhas com café descafeinado. Minutos depois vê Levy entrar no Café, o homem que sempre andava com a sua capa e chapéu andou em direção a mesa, o café estava cheio pensou Levy. Tirou sua capa e sentou, em seguida tirou o chapéu e o colocou no acento ao seu lado. Fez o pedido de sempre, Vegas por sua vez limpou a boca com o guardanapo e falou ainda mastigando:

– Aqui está... – fez uma pausa e entregou a pasta a Levy – ...tudo o que você me pediu.

Levy estendeu a mão a fim de pegar a pasta, abriu-a e deu de cara com a foto da jovem do parque – Agradeço imensamente... – disse ao mesmo tempo em que colocou o chapéu sobre o canto direito da mesa.

– Disponha! – disse Vegas e deu mais um gole do seu café.

***

            Entrou no carro, colocou a pasta no banco do carona, por um instante ficou olhando a pasta e refletindo sobre o conteúdo que havia nela. Ia colocando a chave na ignição quando olhou pelo pára-brisa: viu um homem, por sinal bem vestido, calça preta, camisa branca, a gravata também preta, segurava uma maleta marrom; de repente o homem fita certeiramente Levy que tenta disfarçar olhando para o lado, quando volta a olhar novamente para o homem o mesmo havia desaparecido. Dentro do carro Levy olha em volta, inclusive, para trás e nada do homem, coçou os olhos na tentativa desesperada de esclarecer o ocorrido e nada. O que está acontecendo comigo pensou consigo mesmo. Tinha plena consciência de que algo estava acontecendo, porém não sabia o que. Novamente olhou mais uma vez a sua volta a fim de se certificar de que não havia mais nada de natureza estranha.

            Ao dar a partida sem querer olhou para o relógio no painel do carro e imediatamente lembrou-se da ligação estranha que recebera noite passada. Levy agora sabia onde deveria ir.

***

            Passaram-se duas horas desde que Levy havia chegado ao metrô e nada, não encontrara nada que pudesse chamar sua atenção ou que fizesse algum sentido dele estar ali. Saiu da plataforma infestada de pessoas e foi para um corredor, aliás, um corredor bem comprido e largo quase completamente vazio, na extremidade oposta a que o policial estava, logo perto da saída, havia um rapaz tocando violão, começara a tocar uma música no estilo folk. A sua esquerda havia duas máquinas, uma de café expresso com um nome em francês e outra de refrigerante; sem pensar duas vezes colocou a moeda na máquina de café, pegou o copo, deu um assopro e bebeu. Ao virar deparou-se com o homem estranho nas mesmas vestes. Estava abrindo um pequeno armário, Levy, pois, ficou parado o observando atentamente. O homem, por sua vez, colocou a maleta marrom dentro do armário e o fechou, em seguida caminhou rumo a saída, em direção ao rapaz do violão, Levy deu alguns passos, olhou para o armário cujo número era onze, voltou seus olhos na direção que o estranho se dirigiu e novamente sumira. O rapaz, no entanto, continuava a tocar seu violão tão bem afinado.

            Tudo parecia normal, não para Levy que voltou sua atenção para o armário onze, olhou em volta, espero que eu não esteja ficando louco pensou. O armário não estava trancado, foi abrindo lentamente até levar um susto com o barulho do metrô, olhou para o seu lado direito e viu pessoas saindo e entrando do metrô e estas que saíram dirijam-se pelo mesmo corredor em que permanecia parado de frente com um pequeno armário. Era um verdadeiro balburdio o vozerio das pessoas. No entanto, Levy, concentrou-se naquilo que estava a sua frente, abriu de uma vez e lá estava um papel e não a maleta. Mas não um papel qualquer, esse parecia ser bem velho, além do mais, estava todo sujo nas extremidades. Escrito na folha continha alguns números, inclusive o símbolo já conhecido por Levy. O investigador sabia que o assassino utilizava o símbolo para identificar o número nove, afinal, era a única relação que suas vítimas tinham em comum: o dia do nascimento. Porém estava confuso, não sabia o que estava acontecendo. Como pode ser possível, como ele saberia que eu virinha e quem é aquele homem? Pensou penosamente. Não sabia explicar como os fatos o trouxe aquele lugar.

            Pegou o papel, olhou no verso e viu que havia uma mensagem que dizia:

Sexta-feira, 09 de Novembro de 1928
Caro Levy Barros! Se você estiver lendo tais palavras isso significa que o seu nível de consciência decaiu, logo o seu estado clínico é extremamente grave. Preciso que preste bastante atenção nos próximos instantes mesmo que isso seja impossível ou doloroso.

            Levy fez uma pausa na leitura, sentia-se estranho ao ler aquele primeiro trecho da mensagem, era como se alguém estivesse falando com ele em tempo real. Continuou a ler:

Em primeiro lugar: não existe nenhum assassino em série ou algo semelhante. Porém esta foi a forma pela qual encontrei para chamar sua atenção; por favor não pare de ler, vá até o fim.
Não! Você não está louco!

            Interrompeu novamente a leitura, olhou a sua volta com a leve impressão de estar sendo observado. Continuou:

Em segundo lugar você precisa entender que o mundo que você vive não existe, aliás, nada existe. Você não é um policial, nem mesmo chegou a se casar, logo a sua esposa jamais morreu. No entanto tudo a sua volta não passa da propagação do seu subconsciente.
Imagino que esteja perguntando-se quem de fato sou eu. Pois bem! Eu sou você; fui desenvolvido como um mecanismo desenvolvido para manter a sua mente estabilizada.

            Impossível, pensou Levy. Era difícil compreender e ao menos aceitar tais palavras, melhor, suas próprias palavras. Por um instante hesitou em continuar a leitura, respirou fundo e continuou:

Eu sei que parece absurdo o que lhe informo agora, mas infelizmente estes são os fatos. Você precisa abrir os olhos e ver novamente a luz do dia.

            A mensagem chegara ao fim abruptamente semelhante a música quando é interrompida no volume máximo. Virou o papel, havia um número... No mesmo instante o sistema de som da estação de metro soou uma campainha, uma voz feminina anunciou o próximo trem, depois a previsão do tempo e por último as horas:

– 19h28min agora! – novamente a campainha.

            Segundo depois sumira e uma música começou a tocar. Levy, no entanto, reparou algo curioso, havia quatro números no papel – 1928 – Dobrou o papel e o guardou no bolso do paletó. Ficou tão absorvido durante todo aquele tempo que havia se esquecido do café, deixou-o dentro do armário e caminhou até a saída, o rapaz que tocava sumira também. Subiu as escadas até a superfície. Tudo parecia normal, parecia ser o seu mundo.

            O dia caminhava para o fim, Levy caminhava na direção do carro, parou ao lado de uma lixeira, tirou o chapéu e o jogou ali dentro.

***

            A noite cobria o céu, o vento frio trazia a chuva. Um mendigo caminhava pela calçada desconsolado e completamente sozinho, aproximou-se e o pegou. Só achou uma coisa estranha dentro do chapéu: um Símbolo.

FIM

2 comentários:

Michelle Lombardo disse...

Muito, muito legal cara!
Você escreve muito bem, senti uma certa inveja agora.
Quem sabe um dia eu chego lá...

yuri gabliel disse...

Adorei ficou show o clima os personagens a historia tudo combina e encaixa perfeitamente para no final surpreender o leitor com um final jamais esperado

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