sábado, 8 de dezembro de 2012

Conto: O velho sem nome





Ele sempre fazia o mesmo caminho, com sua bengala e com uma visível dificuldade em andar; todos os dias cumpria o ritual: caminhava da casa para a pracinha e desta para sua casa novamente. Eu sempre o vi em suas caminhadas, no entanto não o conhecia, não sabia qual era o seu nome, mas admirava sua força de vontade, na verdade o que eu via naquele velho era uma simplicidade, uma nobre humildade, talvez ingenuidade da minha parte, mas sempre tive vontade de ouvir suas histórias, suas aventuras, quem sabe conhecer "um" passado pelos seus olhos, só que nunca tive coragem, sempre com pressa e talvez essa seja mesmo a minha desculpa.

  Lembro-me dele antes, quando andava pela cidade vendendo queijos, nessa época não precisa da bengala para andar, era forte e muito comunicativo. Tempo depois havia sumido, será que se mudou pensava comigo mesmo. Mas então... o vejo com a bengala e o reconheço, o velho dos queijos dizia para mim mesmo quando o vi pela primeira vez depois de um longo tempo.

    Certa vez o vi sentado na porta de sua casa, observava o movimento da rua, desci da bicicleta e fui empurrando-a. Do outro lado da rua ia fitando o velho e tentando adivinhar o que se passava em sua mente curioso como o estou agora. Lógico que impossível deduzir exatamente o que o velho pensava, mas confesso que era algo que me deixava profundamente intrigante.

   Quando foi hoje voltando do trabalho, vi o velho sendo amparado por uma paramédica e sendo colocado dentro da ambulância, até reduzi a velocidade, mas infelizmente não consegui ver sua face. Porém, por um instante tive a impressão que não estava nada bem, percebi que uma senhora ficou parada no portão, talvez sua esposa, e coitada, devia estar tão preocupada, aflita. Imagino eu que afligida por uma angústia, por uma dor antes da hora. Mas eu podia estar errado... e quero estar errado.

  Depois desse dia sinto um aperto no coração, uma angústia constante preenche os meus dias. Posso ter perdido um amigo que sempre quis ou não, porém essas palavras foram a forma que encontrei para homenageá-lo: O velho sem nome, quem guardo com carinho em minhas lembranças.

Um comentário:

Michelle Lombardo disse...

Esse sentimento é confuso, mas acredite, eu o conheço.
Havia um coroa que morava proximo a minha casa, eu nunca falava com ele, mas ele era um senhor movido de uma ingenuidade imensa, lembro-me que todos os domingos eu via ele sentado na porta da igreja, chegava antes de todo mundo, antes mesmo da igreja abrir.
Anos depois de sua morte, eu estava conversando com uma senhora na loja onde trabalho, no meio da conversa ela me falou sobre ele, me contou histórias que me fizeram sentir saudade de alguem que eu nem conheci, histórias tristes que partiram meu coração.
Existe um livro de Haruki Murakami chamado Kafka à beira mar, sempre que leio esse livro me lembro dele... Acho que é porque eu nunca conheci meu vô... enfim, os velhinhos são carismaticos demais.

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